sábado, 6 de outubro de 2007

Inverso

Fim de tarde, sexta-feira quente, calorenta, cansativa, sufocante.

- As vezes me deito na cama e escuto música querendo apenas não pensar em nada.

Disse ele mais inquieto que o normal no divã, depois de uma tragada de seu inseparável companheiro Marboro Red.

- Mas que pensamento te assusta?

Perguntou a "normal", sentada na ponta de sua poltrona marrom areia, com sua saia clássica, elástico na cintura e com curioso detalhe passante e faixa para amarrar. Bege, sem vida, sem emoção, sem.

- Não sei, mas as vezes penso que não penso e isso inquieta ainda mais, como se o nada me amedrontasse, menos que qualquer outra coisa, mas muito. Caminho de um lado a outro da casa, procuro respirar, procuro entender.

Ele agora está sentado, olhar baixo, cabelo bagunçado, cigarro fortemente apertado entre os dedos. As olheiras são inegáveis, os lábios secos gritantes. Parece que não dorme a dias.

- E porque não descansa? Porque te culpa? Com o que?

Ela segura no colo um bloco de notas, tem uma caneta que desliza entre seus dedos como se batucasse uma música. Ela já não escreve nada mais, mas seus olhos não escondem sua curiosidade, sua preocupação.

- Não me culpo por nada! De onde tiraste isso? Não descanso porque não consigo, não quero o momento antes do sono que nos faz pensar no que estamos fazendo. Não quero não pensar.

Pela primeira vez ele a encara. O castanho vibrante dos olhos ainda está ali, escondido entre as lentes de seus óculos com armação fina, cinza.

- Porque cala? Fale tudo que tem pra falar, não guarde nada não.

O silêncio toma conta da sala, só se pode ouvir o tic-tac do relógio que não percebe que não é momento para seguir como sempre.

Ele se levanta, ela também.

Ela devolve o bloco e a caneta a ele e senta no divã.

Ele busca sua poltrona.

- Qual o diagnóstico do analista?

Pergunta ele, agora com uma nova feição, um sorriso sarcástico.

- Nenhum, mas pode tomar umas pílulas, entender não é preciso.

Disse ela, agora sorrindo e se aconchegando no divã.

As coisas agora estão no seu lugar.

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